O rolezinho da classe média

 

A Forever 21 desde que anunciada a sua chegada ao Brasil, trouxe também polêmicas. O burburinho da vez é a opinião da assistente social Maria Emília Cerutti (veja o vídeo aqui), que vem tomando as redes sociais principalmente acompanhada de críticas, condenando a declaração da mesma, que se posicionou contra a instalação da marca no shopping Village Mall no Rio de Janeiro.

O Village Mall já era anunciado como um shopping de luxo, voltado para a classe A, com grifes como Armani, Louis Vuitton, Valentino, etc… Ou seja, de alta costura. Como qualquer estabelecimento, definiram inicialmente qual o público que queriam atingir. Você, eu, classe média do Brasil, sabemos que não temos condições financeiras para comprar rotineiramente produtos dessas marcas, é duro aceitar, mas é a verdade. Talvez, adquirir uma vez ou outra um produto, mas certamente não somos nós que mantemos essas grifes por anos em atividade.

Bom, para você continuar lendo esse post, essa é a primeira coisa que você tem que aceitar do fundo do seu coração: você provavelmente não é o público alvo das grifes de luxo. Aceitando essa primeira parte, podemos dar continuidade… Eu não sei quais as condições financeiras dessa assistente social, mas partindo do pressuposto que é uma consumidora de marcas de luxo, classifico-a como classe A.

No Rio, temos a festa “Baile da Favorita”, que ocorre na Rocinha e vende ingressos a partir de 200 reais. É uma festa voltada para a classe média, que saem de seus apartamentos bem localizados, em bairros valorizados, e frequentam o baile funk por um valor equiparado aos de ingressos de shows internacionais, afinal, é “cool” hoje em dia ir a favelas e poder ostentar seu poder aquisitivo em um ingresso caríssimo para ouvir funk (o mesmo que ninguém suporta ao ouvir no Esquenta). A classe média invade o espaço das classes menos abastadas, porém, deixaria de frequentar certamente o Paris6, se o mesmo começasse a ser frequentado pelos moradores dos locais onde ocorrem os bailes funks.

Eu acho que a grande questão que faz a declaração dessa senhora ser tão criticada, é o simples fato de que agora a crítica foi direcionada para a classe média. A mesma que enche a boca pra falar que comprou uma calça da Zara, enquanto a mesma fora do país tem preços tão populares quanto uma H&M. A mesma classe média que torce a cara para uma Riachuelo, enfrenta filas gigantescas para comprar em uma loja tão popular quanto como é a Forever 21. Porém, a Forever 21 não é brasileira… Vocês viram a marca em uma de suas viagens para Nova York, no qual, provavelmente voltaram trazendo um PS4 por um valor muito mais em conta, já que no Brasil essa compra pesaria no seu orçamento.

Sabem aquela frase que também corre as redes sociais, “Seja a mudança que você quer ver no mundo”? Sugiro a classe média, e quando falo isso me refiro a mim também, a parar de compartilhá-la e começar a refletir sobre ela.

Sejam honestos ao menos com vocês mesmos: vocês continuariam frequentando Paris6, Outback, Mirroir, ou qualquer outro local voltado para a classe média,…continuariam comprando na Zara, na Animale, na Farm,… Se as camadas mais populares do país também começassem a ter acesso? Imaginem aquele local que vocês frequentam no final de semana, acompanhados dos amigos que possuem condições financeiras semelhantes, invadidos por favelados ao som de funk no celular. Vocês realmente não teriam um pensamento semelhante ao dessa assistente social?! Vocês não escolhem os locais que vão pelo status também? Vocês podem até curtir um samba na Pedra do Sal, podem até ir pra quadra da Mangueira, mas a maioria se sente incomodada sim quando pessoas de classes sociais menores invadem os espaços que frequentam, após assumirem que o local é destinado a uma classe mais elevada.

Pra encerrar, a minha opinião pessoal:

1) o Village Mall errou por ter saído tão bruscamente da proposta inicial. Aqui em Milão, apesar de não termos shoppings, a H&M não ocupa a mesma rua que o Cavalli. Isso não tem nada a ver com preconceito, e sim com estratégias de negócios. Quem compra na H&M é quem compra na Zara, quem compra na Bershka… Quem compra Cavalli, é quem compra na Chanel, é quem compra na Cartier.  E isso não me impede, e nem me faz sofrer preconceito se resolvo andar na rua das lojas de grifes com as minhas sacolas da H&M.

2) Todos devemos questionar até onde vai o nosso preconceito e até onde a segregação nos incomoda. Ela nos incomoda sempre, ou só quando nós somos atingidos?

3) A classe média está sofrendo uma crise de identidade, e a frase usada ironicamente pela mesma como “a classe média sofre” acompanhando  foto na piscina de um hotel 5 estrelas, faz mais sentido quando vejo essas críticas em relação a declaração da Maria Emília Cerutti entrando em choque com os comportamentos habituais.

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18 pensamentos sobre “O rolezinho da classe média

  1. Pingback: Hoje Vou Assim OFF por Ana Soares | moda e estilo que cabem no seu bolso » Arquivos » Que fique cada um no seu lugar, ou o pensamento dos medíocres

  2. Ótimo texto…É incrível como as pessoas gostam de sair por aí falando que tudo é preconceito e com esta atitude sendo mais preconceituosas. Temos que refletir mais…se colocar no lugar do outro….entender a situação e o contexto.

    • Obrigada pela sua opinião, Raquel!

      Exatamente isso que eu enxerguei sobre esse bafafá, e tantos outros que toda semana aparecem nas redes sociais. Todo mundo critíca, tudo é preconceito,… Mas poucas usam isso pra fazer uma autocrítica ao meu ver. Muitos seguindo o caminho das massas e reproduzindo opiniões que ficam entranhadas e não são refletidas.

  3. Nathália, sensacional esse seu post. E que tapa você nos deu ao falar da hipocrisia de criticarmos essa mulher que fez esse tipo de comentário sendo que, possivelmente também agiriamos assim em outra ocasião! Incrível seu ponto de vista e gostei muito do que li aqui! Parabéns! 🙂

    • Bruna, muito obrigada pelo comentário!

      A minha primeira ideia ao ver o vídeo foi como tem sido a da maioria… tratei logo de julgá-la como preconceituosa. Depois me imaginei numa situação semelhante, dentro do meu meio, e comecei a analisar quais tipos de comportamento eu já tinha visto dentro do meu círculo que também a criticava.

      Além disso tem a questão de estratégia empresarial. É inegável que o público de um local influencia outras pessoas a frenquentarem ou não… Em qualquer classe social isso, ainda que não seja de forma preconceituosa, ou da forma como eu coloquei “favelados” no texto pra chamar mais atenção, e os empresas precisam sim considerar isso. Faço Sistema Moda aqui na Itália, isso significa que não é um curso voltado para estilismo como a maioria pensa,mas sim para a gestão de uma empresa de Moda, e essas medidas estratégicas são o centro de estudo. Na minha opinião, não tem como ignorá-las.

    • Muito obrigada pelo comentário! Legal ver outras pessoas que conseguem acompanhar essa mesma linha de raciocínio. 😉
      Mas acho válido o texto da Ana também. Minha primeira impressão ao ver o vídeo foi de repelir também a opinião da senhora entrevistada.

      Beijos!

      • Acho que todos tiveram esta mesma impressão.
        Esta história do politicamente correto fica muito evidenciado, tudo tem que ser dosado, bem pensado. Cansa né?!

      • O “politicamente correto” começou a ser impensável. Tá na moda…as pessoas simplesmente vão na onda.

        Só é uma pena que esse “politicamente correto” é variável, e tem sido de acordo com os interesses de cada um. Se é pra pagar de bonzinho, todos vestem essa ideia. Mas quando ser correto esbarra com algum benefício, as pessoas não são.

        E realmente, essa onda de “Ah, é preconceito!”, “Ah, é porque é minoria”, “Ah, é racismo!” a mim, já está cansando. Não que realmente não tenhamos estes problemas,mas já tá virando justificativa pra qualquer coisa.

  4. Acabei lendo sua material por “ordem” de minha mulher Ruby que já comentou aqui…shashaha, Brincadeiras a parte, achei muito interessante o seu texto, bem escrito e direto, se pararmos para ver o vídeo a crítica no geral era para o shopping, ela citou algumas vezes as pessoas que passaram a frequentar o shopping para explicar o quão incomodo ficou para eles clientes costumeiros de la. As diferenças sociais existem e sempre vão existir, o problema desse vídeo é que ela falou o que sentia e hoje em dia se tem que falar o que os outros querem ouvir, pelo menos é o que a mídia nos força a fazer. Eu não tenho nada contra classe baixas ou mais altas, mas sim contra atitudes de algumas pessoas como foi citado o caso de alguns ouvir funk em celulares.

    • Oi, Alex! Gargalhei aqui como você começou o seu comentário! Hahahaha…

      Exatamente, hoje é muito dificil dar uma opinião que não é de acordo com a da maioria sem ser “apedrejado”. Uma das primeiras respostas que tive a esse post, por Facebook, foram ofensas de uma pessoa que não concordava mas não sabia argumentar.

      Atento também a mais uma coisa que ela citou no vídeo: restos de comidas jogados pelo shopping. Primeiro passo pra viver numa sociedade, e frequentar locais públicos, é manter a educação.

      É exatamente o mesmo caso de celular, independe do gênero musical, alto em pleno ônibus. As pessoas se sentem incomodadas com uma falta de educação, que apesar de serem em outras circunstâncias, é praticamente a mesma coisa que essa senhora se queixa.

      Abraços!

      • Nathália,

        Eu me lembro dessa parte da comida também e não acredito que por ser menos favorecido a pessoa tem o direito de ser menos educado. E tem algumas pessoas que usam isso em seu favor para poder usar de desculpas nesses casos, pois se você reclamar será logo rotulado de preconceituoso.
        Morei um tempo em Singapura e la por exemplo eu não vi diferenciação entre classes, acredito eu que um dos motivos disso deve ser justamente a educação, da mesma forma que você vê uma pessoa com uma ferrari entrando em um loja você vê uma pessoa que chegou ali de ônibus.
        E Infelizmente educação é um item em falta em nosso país.

      • Ótima observação, Alex!

        Acho que em todos os problemas dentro do Brasil, acabamos nos deparando com a questão da educação. Não só no nível acadêmico, mas no familiar mesmo.

        Se formos analisar, a F21 apesar dos preços baixos é destinada a classe média como falei, já que ela era conhecida já por ser uma loja no exterior. Por pessoas que na maioria já tinham ido para Nova York, por exemplo. Então pela lógica, acredito que sejam pessoas que estudaram no mínimo em colégios razoáveis… Porém, provavelmente, faltou educação no âmbito familiar.

  5. Pingback: Sapatos, Heineken,…E machismo? Será? | Fashionismo sem fronteiras

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