Moschino e um consumismo acéfalo

Em fevereiro deste ano, Jeremy Scott lançou a sua primeira coleção a frente da Moschino. Particulamente não costumo apreciar as criações dele, porém, tenho que admitir: ele foi genial em sua última coleção. Não porque o produto está sendo vendido, está aparecendo na maioria dos blogs de “Moda”, nacionais ou internacionais. Mas sim porque ele está fazendo muita gente nesse meio de trouxa.  As pessoas infelizmente tem o costume de não avaliar bem o que compram. Apenas compram. Compram porque viu aquela blogueira que na verdade nada entende do assunto falar que é legal. Compram porque viu nas semanas de moda, porque viu na revista, porque é de marca, porque é caro.

Primeiro: sair por aí fantasiada de embalagem de batatas fritas do McDonalds não é legal.

Segundo: pagar caro pra sair fantasiada de embalagem de batatas fritas agrava a situação.

Terceiro: Jeremy Scott inseriu a imagem do fast food mais criticado em relação a qualidade de seus alimentos e influenciador da obesidade nos Estados Unidos, em um meio onde frequentemente se vive a ditadura da magreza.

Entre os modelos apresentados ao longo do desfile, além dos que foram inspirados no McDonalds, vemos embalagens de outras guloseimas, e este a seguir que faz referência a informações nutricionais. Reparem ao longo da estampa o quanto a palavra “Fat” (gordura/gordo) aparece:

Bom, então pra galera da “Moda” que apenas consome, e aplaude qualquer coleção de grife sem entendê-la, eu vou explicar: Jeremy Scott  fez uma crítica em sua coleção ao desenvolve-la em cima do logotipo do McDonalds. Uma crítica ao fast food também, mas principalmente ao consumismo, onde as pessoas apenas consomem sem se identificar com o produto. Garotas que vivem contando cada caloria, que sequer passam na frente de uma rede de fast food, muitas que sofrem de bulimia… Usando uma capinha de Iphone que faz referência ao McDonalds.  Porém, assim como as pessoas compram a magreza das revistas, compram também qualquer produto que supostamente gera um “status”, ainda que as duas ideias sejam paradoxais.

Você fashionista, blogueira, celebridade, ou apenas uma leitora dessas revistas de Moda e beleza que vive o ano todo em dieta, faz lipoaspiração, não sai da academia, e compra um produto da Moschinho da última coleção porque é Moschino… A crítica é você. Isso significa basicamente que você anda saindo por aí vestida de palhaça,  não só por parecer uma embalagem ambulante do McDonalds, mas porque você está comprando um produto com o qual você não se identifica. Ou talvez não se identifique com as modelos magérrimas, mas continua comprando as duas ideias.

Complementando essa interpretação da coleção, apresento a vocês a outra linha que ele seguiu ao longo do mesmo desfile: o dourado (que representa riqueza, dinheiro…) em evidência principalmente através da quantidade exagerada de colares. Uma retratação do consumismo, do poder de compra, e da compra desenfreada.

O melhor é que a crítica é TÃO ÓBVIA, e eu não vi nenhuma revista ou site  de Moda mencionar (se alguém conhecer, me mande o link), que na mesma coleção baseada no McDonalds… vemos:

Tcharan!! O Bob Esponja!

(e caso até hoje alguém ainda não tenha percebido, é uma esponja de limpeza…que absorve!)

Pois é… Esse é o Jeremy Scott rindo do mundo Fashion.

Pra finalizar, uma dica repassada a mim pela minha amiga Jéssica Duarte, também estudante de Moda: Blogueira Shame

O rolezinho da classe média

 

A Forever 21 desde que anunciada a sua chegada ao Brasil, trouxe também polêmicas. O burburinho da vez é a opinião da assistente social Maria Emília Cerutti (veja o vídeo aqui), que vem tomando as redes sociais principalmente acompanhada de críticas, condenando a declaração da mesma, que se posicionou contra a instalação da marca no shopping Village Mall no Rio de Janeiro.

O Village Mall já era anunciado como um shopping de luxo, voltado para a classe A, com grifes como Armani, Louis Vuitton, Valentino, etc… Ou seja, de alta costura. Como qualquer estabelecimento, definiram inicialmente qual o público que queriam atingir. Você, eu, classe média do Brasil, sabemos que não temos condições financeiras para comprar rotineiramente produtos dessas marcas, é duro aceitar, mas é a verdade. Talvez, adquirir uma vez ou outra um produto, mas certamente não somos nós que mantemos essas grifes por anos em atividade.

Bom, para você continuar lendo esse post, essa é a primeira coisa que você tem que aceitar do fundo do seu coração: você provavelmente não é o público alvo das grifes de luxo. Aceitando essa primeira parte, podemos dar continuidade… Eu não sei quais as condições financeiras dessa assistente social, mas partindo do pressuposto que é uma consumidora de marcas de luxo, classifico-a como classe A.

No Rio, temos a festa “Baile da Favorita”, que ocorre na Rocinha e vende ingressos a partir de 200 reais. É uma festa voltada para a classe média, que saem de seus apartamentos bem localizados, em bairros valorizados, e frequentam o baile funk por um valor equiparado aos de ingressos de shows internacionais, afinal, é “cool” hoje em dia ir a favelas e poder ostentar seu poder aquisitivo em um ingresso caríssimo para ouvir funk (o mesmo que ninguém suporta ao ouvir no Esquenta). A classe média invade o espaço das classes menos abastadas, porém, deixaria de frequentar certamente o Paris6, se o mesmo começasse a ser frequentado pelos moradores dos locais onde ocorrem os bailes funks.

Eu acho que a grande questão que faz a declaração dessa senhora ser tão criticada, é o simples fato de que agora a crítica foi direcionada para a classe média. A mesma que enche a boca pra falar que comprou uma calça da Zara, enquanto a mesma fora do país tem preços tão populares quanto uma H&M. A mesma classe média que torce a cara para uma Riachuelo, enfrenta filas gigantescas para comprar em uma loja tão popular quanto como é a Forever 21. Porém, a Forever 21 não é brasileira… Vocês viram a marca em uma de suas viagens para Nova York, no qual, provavelmente voltaram trazendo um PS4 por um valor muito mais em conta, já que no Brasil essa compra pesaria no seu orçamento.

Sabem aquela frase que também corre as redes sociais, “Seja a mudança que você quer ver no mundo”? Sugiro a classe média, e quando falo isso me refiro a mim também, a parar de compartilhá-la e começar a refletir sobre ela.

Sejam honestos ao menos com vocês mesmos: vocês continuariam frequentando Paris6, Outback, Mirroir, ou qualquer outro local voltado para a classe média,…continuariam comprando na Zara, na Animale, na Farm,… Se as camadas mais populares do país também começassem a ter acesso? Imaginem aquele local que vocês frequentam no final de semana, acompanhados dos amigos que possuem condições financeiras semelhantes, invadidos por favelados ao som de funk no celular. Vocês realmente não teriam um pensamento semelhante ao dessa assistente social?! Vocês não escolhem os locais que vão pelo status também? Vocês podem até curtir um samba na Pedra do Sal, podem até ir pra quadra da Mangueira, mas a maioria se sente incomodada sim quando pessoas de classes sociais menores invadem os espaços que frequentam, após assumirem que o local é destinado a uma classe mais elevada.

Pra encerrar, a minha opinião pessoal:

1) o Village Mall errou por ter saído tão bruscamente da proposta inicial. Aqui em Milão, apesar de não termos shoppings, a H&M não ocupa a mesma rua que o Cavalli. Isso não tem nada a ver com preconceito, e sim com estratégias de negócios. Quem compra na H&M é quem compra na Zara, quem compra na Bershka… Quem compra Cavalli, é quem compra na Chanel, é quem compra na Cartier.  E isso não me impede, e nem me faz sofrer preconceito se resolvo andar na rua das lojas de grifes com as minhas sacolas da H&M.

2) Todos devemos questionar até onde vai o nosso preconceito e até onde a segregação nos incomoda. Ela nos incomoda sempre, ou só quando nós somos atingidos?

3) A classe média está sofrendo uma crise de identidade, e a frase usada ironicamente pela mesma como “a classe média sofre” acompanhando  foto na piscina de um hotel 5 estrelas, faz mais sentido quando vejo essas críticas em relação a declaração da Maria Emília Cerutti entrando em choque com os comportamentos habituais.